I - A Morte Iminente de Astolfo Mercadante
Autor: Eduardo Perdido

     Astolfo Mercadante era um homem muito solitário, que vivia numa pacata cidade do interior de São Paulo. Sua vida se resumia à acordar, comer quiabos secos colhidos em sua própria horta de fundo de quintal e ir para o trabalho, numa pequena loja de roupas íntimas, onde, vestido de Vovó Mafalda, enfrentava a chacota quase que diária da clientela, ao vê-lo em tão inusitados trajes. Voltava então para sua pequena e modesta moradia, a qual chamava docemente de Lar Mozèle, e dormia completamente nu, enrolado apenas em seus lençóis de cetim, como um bebê árabe.
      De dentes sujos e lábios ressequidos pela dor da solidão sem fim, Astolfo era um homem não muito baixo, nem muito alto, mas com uma grande e sebosa pança a exaltar-se sob seus seios masculinos repletos de verrugas e pêlos.
      Sua maior alegria era cobrir seu corpo nu com sorvete de ameixa e dançar entusiasticamente diante do espelho do quarto, rodopiando e saltitando num frenesi quase insano.
      A cidade não o via com bons olhos. Ele não era o que se podia chamar de cidadão exemplar, muito pelo contrário. Seu hábito de atirar abacate podre nas crianças que passavam frente à sua casa causava revolta nos vizinhos e demais moradores da cidade.
      Mas Astolfo queria mais. Queria mais da vida, gostava de sonhar, de se ver no palco, aplaudido, ou na torre Eiffel, sendo fotografado pelos turistas. E um dia encontrou o que tanto queria. Um palhaço de circo, amarrado numa árvore. Com os olhos cheios de lágrimas e o coração totalmente descompassado, Astolfo o desamarrou e levou para casa, carregando-o emocionado nos ombros. Guardou-o num armário, embrulhado num papel celofane. Naquela noite, pela primeira vez, ele não era mais um homem solitário. Astolfo dormiu com um imenso sorriso nos lábios. Para não mais acordar.

FIM

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