II - O tamanduá assassino
Autor: Eduardo Perdido

     Sentado sozinho no escuro, me pergunto o que seria necessário para me assustar. Um animal estranho talvez. Um animal estranho numa situação estranha ou com alguma peculiaridade assustadora. Como uma foca desmembrada se arrastando em meu quintal, se debatendo em pânico. Ou um tamanduá. Mas não um simples tamanduá, desses que desfilam pela floresta amazônica esbanjando sensualidade e erotismo com sua boca comprida a degustar milhares de formiguinhas incautas, mas sim um tamanduá assassino, com a incrível e tenebrosa habilidade de comprimir seu corpo para se aproximar de suas vítimas, cujos cérebros e entranhas são rapidamente devorados, sugados através da orelha ou até mesmo pela fossa nasal.
     Pois imagine: seu quarto está escuro, você se prepara para dormir, está deitado, tranquilo, após um longo dia de labuta. Um barulho estranho se aproxima da porta, como um estalar de dedos, dedos rápidos, e de repente ouve-se um som similar ao de um tomate podre sendo esmagado. É o tamanduá, e ele se parece agora com uma pizza, passando vagarosamente pela fresta abaixo da porta, com os olhos esbugalhados e o corpo peludo a raspar sobre o chão frio. Você acredita ser seu cãozinho de estimação a roçar solitário na porta, mas o tamanduá já passou por ele, deixando para trás apenas o corpo inerte e seco daquele que poucas horas antes era alegremente afagado por suas mãos carinhosas e quentes, e arfava cheio de vida e alegria canina.
     O monstro chega então até você, ainda em formato de pizza, receoso de ser descoberto, se movendo ainda com extrema lentidão, mas respirando pesadamente e trazendo até você o odor fétido da morte... Ele sobe em sua cama com suas pequenas e afiadas garras, e com deleite assassino se aproxima de seu rosto. Você abre os olhos, e a visão é tão estarrecedora que o grito fica preso na garganta, seu corpo se contrai e fica paralisado, e quando você finalmente consegue emitir algum som, é apenas seu último suspiro de vida.
     Interessante, não? Mas não bom o bastante para você leitor, sempre exigente e delicado. Então que tal esse: o monstro se aproxima, devagar e amassado... Seu hálito de morte penetra seus pulmões cansados... De repente ele pára, diante de seu rosto, como a observar uma criatura divina, extasiado. Você abre os olhos, e, quando se prepara para gritar com todas as forças que pode reunir no momento, o tamanduá tasca-lhe um suculento beijo, rodopiando sua comprida língua na sua, com volúpia e paixão. O que se segue então é um belíssimo e indescritível ritual de acasalamento, viagens ao redor do mundo, filhos e netos, todos meio pizza, meio homem, meio tamanduá. E todos com sabor de requeijão.

FIM

<< Anterior   Próximo >>