Sentado
sozinho no escuro, me pergunto o que seria necessário para me
assustar. Um animal estranho talvez. Um animal estranho numa situação
estranha ou com alguma peculiaridade assustadora. Como uma foca desmembrada
se arrastando em meu quintal, se debatendo em pânico. Ou um tamanduá.
Mas não um simples tamanduá, desses que desfilam pela
floresta amazônica esbanjando sensualidade e erotismo com sua
boca comprida a degustar milhares de formiguinhas incautas, mas sim
um tamanduá assassino, com a incrível e tenebrosa habilidade
de comprimir seu corpo para se aproximar de suas vítimas, cujos
cérebros e entranhas são rapidamente devorados, sugados
através da orelha ou até mesmo pela fossa nasal.
Pois imagine: seu quarto está escuro,
você se prepara para dormir, está deitado, tranquilo, após
um longo dia de labuta. Um barulho estranho se aproxima da porta, como
um estalar de dedos, dedos rápidos, e de repente ouve-se um som
similar ao de um tomate podre sendo esmagado. É o tamanduá,
e ele se parece agora com uma pizza, passando vagarosamente pela fresta
abaixo da porta, com os olhos esbugalhados e o corpo peludo a raspar
sobre o chão frio. Você acredita ser seu cãozinho
de estimação a roçar solitário na porta,
mas o tamanduá já passou por ele, deixando para trás
apenas o corpo inerte e seco daquele que poucas horas antes era alegremente
afagado por suas mãos carinhosas e quentes, e arfava cheio de
vida e alegria canina.
O monstro chega então até
você, ainda em formato de pizza, receoso de ser descoberto, se
movendo ainda com extrema lentidão, mas respirando pesadamente
e trazendo até você o odor fétido da morte... Ele
sobe em sua cama com suas pequenas e afiadas garras, e com deleite assassino
se aproxima de seu rosto. Você abre os olhos, e a visão
é tão estarrecedora que o grito fica preso na garganta,
seu corpo se contrai e fica paralisado, e quando você finalmente
consegue emitir algum som, é apenas seu último suspiro
de vida.
Interessante, não? Mas não
bom o bastante para você leitor, sempre exigente e delicado. Então
que tal esse: o monstro se aproxima, devagar e amassado... Seu hálito
de morte penetra seus pulmões cansados... De repente ele pára,
diante de seu rosto, como a observar uma criatura divina, extasiado.
Você abre os olhos, e, quando se prepara para gritar com todas
as forças que pode reunir no momento, o tamanduá tasca-lhe
um suculento beijo, rodopiando sua comprida língua na sua, com
volúpia e paixão. O que se segue então é
um belíssimo e indescritível ritual de acasalamento, viagens
ao redor do mundo, filhos e netos, todos meio pizza, meio homem, meio
tamanduá. E todos com sabor de requeijão.
FIM