Atravessaram
então a rua, para observar de perto a jaula dos símios.
Augusto perguntou uma ou duas coisas para Mário, que respondeu
com a maior facilidade. Debateram uns cinco minutos sobre o parentesco
do macaco com o homem e sobre o elo-perdido, até que Augusto
perguntou sobre os hábitos alimentares dos macacos quando em
cativeiro, e convidou Mário para ir com ele até a entrada
da jaula, nos fundos, analisar a dieta dos bichinhos. Mário,
muito preocupado, achou melhor não, mesmo querendo muito, alegando
que ali era permitido somente para funcionários autorizados.
Augusto, percebendo que aquilo poderia
ser o fim de seu plano, deu sua última cartada, dizendo que aquela
era uma oportunidade única de comprovar muitas coisas que Mário
só havia visto em empoeirados livros. Foi o suficiente para que
o ingênuo Mário concordasse e aceitasse o convite.
Foram andando, felizes. Mário chegara
até a pensar se não seria melhor ir de mãos dadas
com Augusto. Estava com medo, mas pensou melhor e resolveu enfrentar
a situação como um nerd digno. Passaram pela jaula das
seriemas selvagens. Mário não agüentou e parou para
observar uma típica cena de acasalamento animalesco. Sim... aquilo
seria muito útil para futuros estudos. Augusto, já muito
irrequieto e impaciente para que seu plano fosse logo posto em prática,
puxou-o pelo colarinho. Com sua força e ímpeto juvenil,
rasgou a camiseta Power Force 2000 de Mário.
Essa foi a gota d'água. Mário,
com os olhos cheios de lágrimas, ou segundo ele mesmo, água
com sais minerais gerados pelo fluxo intermitente do tripanossoma cerebral,
já com a lente dos óculos muito embaçada, e a garganta
com aquele nó típico das situações embaraçosas,
esboçou abrir um berreiro. Foi só abrir a boca para Augusto,
com sua destreza maligna, tapá-la com um pequeno pedregulho marrom
catado aleatoriamente no chão. Foi o suficiente para que os olhos
de Mário secassem e sua garganta voltasse à normalidade.
Muito envergonhado, pediu desculpas à Augusto, que as aceitou
como um covarde cavalheiro.
Finalmente chegaram aos fundos da jaula
dos macacos. Mário, aquele ingênuo estudioso da vida intracelular
dos pseudópodes, vendo aqueles primatas, tão primitivos
se comparados à sua superior e magnânima inteligência,
ou mesmo à inteligência (voltada para o mal, como em tantos
outro casos, de Hittler à Polanski) de Augusto, chegou a ter
pena deles, chegou até mesmo a sentir uma leve pontada no coração.
Não... não era isso. É que acabara de tomar uma
pedrada no peito, atirada por um macaco traquina.
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