III - Parindo uma idéia insana
Capítulo II

      Atravessaram então a rua, para observar de perto a jaula dos símios. Augusto perguntou uma ou duas coisas para Mário, que respondeu com a maior facilidade. Debateram uns cinco minutos sobre o parentesco do macaco com o homem e sobre o elo-perdido, até que Augusto perguntou sobre os hábitos alimentares dos macacos quando em cativeiro, e convidou Mário para ir com ele até a entrada da jaula, nos fundos, analisar a dieta dos bichinhos. Mário, muito preocupado, achou melhor não, mesmo querendo muito, alegando que ali era permitido somente para funcionários autorizados.
     Augusto, percebendo que aquilo poderia ser o fim de seu plano, deu sua última cartada, dizendo que aquela era uma oportunidade única de comprovar muitas coisas que Mário só havia visto em empoeirados livros. Foi o suficiente para que o ingênuo Mário concordasse e aceitasse o convite.
     Foram andando, felizes. Mário chegara até a pensar se não seria melhor ir de mãos dadas com Augusto. Estava com medo, mas pensou melhor e resolveu enfrentar a situação como um nerd digno. Passaram pela jaula das seriemas selvagens. Mário não agüentou e parou para observar uma típica cena de acasalamento animalesco. Sim... aquilo seria muito útil para futuros estudos. Augusto, já muito irrequieto e impaciente para que seu plano fosse logo posto em prática, puxou-o pelo colarinho. Com sua força e ímpeto juvenil, rasgou a camiseta Power Force 2000 de Mário.
     Essa foi a gota d'água. Mário, com os olhos cheios de lágrimas, ou segundo ele mesmo, água com sais minerais gerados pelo fluxo intermitente do tripanossoma cerebral, já com a lente dos óculos muito embaçada, e a garganta com aquele nó típico das situações embaraçosas, esboçou abrir um berreiro. Foi só abrir a boca para Augusto, com sua destreza maligna, tapá-la com um pequeno pedregulho marrom catado aleatoriamente no chão. Foi o suficiente para que os olhos de Mário secassem e sua garganta voltasse à normalidade. Muito envergonhado, pediu desculpas à Augusto, que as aceitou como um covarde cavalheiro.
     Finalmente chegaram aos fundos da jaula dos macacos. Mário, aquele ingênuo estudioso da vida intracelular dos pseudópodes, vendo aqueles primatas, tão primitivos se comparados à sua superior e magnânima inteligência, ou mesmo à inteligência (voltada para o mal, como em tantos outro casos, de Hittler à Polanski) de Augusto, chegou a ter pena deles, chegou até mesmo a sentir uma leve pontada no coração. Não... não era isso. É que acabara de tomar uma pedrada no peito, atirada por um macaco traquina.

<< Capítulo 1   Capítulo 3 >>

<< Anterior  Próximo >>