José
era um fazendeiro pobre, mas muito pobre mesmo. Dinheiro para ele não
possuía valor algum, a não ser para limpar seu imundo
ânus quando as folhas de bananeira estavam em falta devido à
seca periódica. O ouro encontrado em abundância no riacho
que cortava sua fazenda servia apenas para substituir seus dentes podres
que caíam em profusão todos os anos.
Possuía ele uma vaca, uma pequena
horta e seu maior tesouro, um pequeno porco anão, pelo qual era
extremamente apegado. Tão apegado que chegara a sacrificar sua
frígida esposa numa época fria e infértil, em lugar
de seu querido porco que, segundo a falecida havia dito momentos antes
de ser degolada e dilacerada com uma pá, daria um excelente banquete
de bistecas com pururucas, e filetes e mais filetes de saboroso bacon
estariam a dançar em seus pratos pelos frios meses que se seguiriam.
José, irritado e faminto, ainda a cortaria em oito grandes pedaços,
untando-os na manteiga e assando-os em seu rústico forno a lenha,
para degustá-los todas as manhãs por tempo indefinido,
sempre com um belo sorriso nos lábios, e estando o estranho porco
sempre a lhe fazer companhia à mesa, todos os dias.
E
assim era o dia-a-dia de José e seu amado porco. Comiam presunto
putrefato pela manhã, tomavam dois copos de leite durante o dia
e se deliciavam com algumas suculentas azeitonas à noite, pouco
antes de irem para o celeiro, onde dormiam abraçados sobre o
feno macio, com os corpos quentes e nus colados. Juntos eram plenos,
juntos eram um.
Houve então uma manhã em
que José acordou e tristemente percebeu que seu companheiro não
estava ao seu lado. A brisa fria da manhã invadiu o celeiro,
trazendo consigo o cheiro e o gosto da morte aos lábios ressequidos
de José, gelando a espinha do pobre fazendeiro, que correu agoniado
para fora, gritando e chamando por seu amado porco. No fundo ele sabia
que não seria atendido, que seu porquinho não viria como
de costume a saltitar alegre por entre as folhas de alface e a correr
serelepe por entre as grandes oliveiras, e que não mais abriria
os braços para acolhê-lo em seu colo e afagar seus pêlos
ralos e enrijecidos pela lama, emabalando-o carinhosamente como a um
filho querido. Não, ele sentia que aquela fatídica manhã
o receberia com a notícia mais triste de sua vida.
José correu e correu, como nunca
havia corrido antes. Atravessou todo o pasto, com o coração
decompassado e a boca seca a clamar por um gole de esperança.
E, quando chegou próximo à sua casa, houve uma incrível
revoada de avestruzes, que com sua chegada fugiram velozes do ponto
onde jazia o cadáver daquele pequeno ser a quem José dedicara
tanto de seu coração.
Com passos trôpegos, José
se aproximou do que sobrara de seu animalzinho, lágrimas ardentes
rolaram por sua face suja de homem do campo, sua boca se contorceu numa
expressão de dor indescritível e ele desfaleceu ali mesmo,
caindo de joelhos diante do que restara do querido porco anão.
Quando voltou a si, estava sem metade
da orelha esquerda e sem o dedo mindinho do pé direito, devorados
em instantes por aves de rapina que rondavam a carcaça e seu
grande corpo estirado no chão. Afastou com um tapa um urubu-rei
que insistia em bicar e perfurar sua língua, e levantou-se, aos
prantos, todo ensanguentado, consumido pela angústia e imensa
dor da perda inexorável.
Afastou aos chutes alguns abutres que
estavam a comer o que restava da pele do crânio do porco, e decepou
com uma foice a cabeça de outros mais abusados que atacavam o
rabicó que José tanto adorava puxar e esticar em já
saudosas noites de verão. Colheu o que restara do corpo e guardou
num saco de batatas, num ritual pesaroso e lento, para em seguida enterrar
sob a sombra de velha macieira. Mas guardou consigo uma pequena lembrança,
uma pequena vértebra de seu grande amor.
Tentou dar prosseguimento normal à
sua vida no campo, mas por mais que tentasse não conseguia, não
podia, não havia como, faltava um pedaço dele mesmo, sua
vida estava terrivelmente incompleta e fadada à solidão.
Uma noite, numa de suas crises de depressão profunda, José
subiu no telhado do celeiro, com a pequena vértebra bem apertada
numa de suas mãos, e no telhado ficou e ficou, até definhar,
e morrer. Seu corpo seco rolou então pelo telhado, e foi cair
lá embaixo, com um baque seco, quebrando-se o corpo podre.
E assim morreu José, o fazendeiro
que era pobre, mas muito pobre mesmo. Mas que teve a maior e mais desejada
riqueza de todas: o amor. E ele amou. E foi amado. Quem já passou
por isso sabe o significado dessas palavras, e entende o que estou dizendo.
Palmas para o fazendeiro José.
FIM